Como é feito o tratamento da APLV?
O tratamento da APLV (Alergia à Proteína do Leite de Vaca) baseia-se fundamentalmente na retirada total das proteínas do leite de vaca da alimentação da criança. Não existe medicamento que cure a alergia — a exclusão dietética é o único tratamento comprovado para controlar os sintomas e permitir o desenvolvimento da tolerância oral.
Tratamento em bebês amamentados
O leite materno é o melhor alimento para lactentes com APLV. A criança deve continuar sendo amamentada. O que muda é a dieta da mãe:
- Retirada do leite de vaca e derivados da dieta materna
- Verificação de rótulos de todos os alimentos industrializados
- Suplementação de cálcio (cerca de 1000 mg/dia) e vitamina D (400 UI/dia) para a mãe durante a dieta restritiva
- Acompanhamento nutricional para evitar deficiências
Se os sintomas não melhorarem após a dieta de exclusão materna (2 a 4 semanas), a mãe deve ser reavaliada para verificar a necessidade de excluir outros alérgenos (como ovo, soja) e considerar outros diagnósticos.
Tratamento em bebês com fórmula
Quando o bebê não pode ser amamentado ou recebe fórmula, existem opções especiais para o tratamento da APLV:
1. Fórmulas Extensamente Hidrolisadas (FEH)
São a primeira escolha para o tratamento de APLV. As proteínas são quebradas em peptideos menores, o que torna a fórmula tolerada por aproximadamente 90% a 95% das crianças com APLV.
- Indicação: casos leves a moderados de APLV
- Maioria das crianças responde bem
- Se não houver melhora em 2 semanas, considerar fórmula de aminoácidos
2. Fórmulas à Base de Aminoácidos (FAA)
Contêm apenas aminoácidos livres, sem peptideos, não havendo possibilidade de reação alérgica.
- Indicação: casos graves (anafilaxia, FPIES, esofagite eosinofílica)
- Hipersensibilidade imediata com risco de anafilaxia
- Crianças que não responderam à FEH após 2 semanas
- Alergia alimentar múltipla
- Comprometimento nutricional grave
3. Fórmulas à Base de Proteína Isolada de Soja
Podem ser consideradas em crianças maiores de 6 meses, sem prematuridade e sem insuficiência renal.
- Mais indicada nas formas mediadas por IgE
- Nas formas não mediadas por IgE: risco de sensibilização simultânea à soja (cerca de 25-60% em alguns estudos)
- Recomendada apenas após 6 a 8 semanas de uso de FEH ou FAA
Esquema de decisão de fórmulas
| Cenário clínico | Fórmula recomendada |
|---|---|
| APLV leve a moderada | FEH (primeira escolha) |
| Sem resposta à FEH em 2 semanas | FAA |
| Anafilaxia, FPIES ou esofagite eosinofílica | FAA (primeira escolha) |
| >6 meses, sem prematuridade, APLV leve | Soja pode ser considerada |
| Comprometimento nutricional grave | FAA |
Tratamento em crianças maiores (alimentação complementar)
Para crianças maiores de 6 meses que já recebem alimentação complementar:
- Excluir todos os derivados do leite: leite, queijo, iogurte, manteiga, creme de leite, requeijão
- Ler rótulos de todos os alimentos industrializados
- Estar atento aos nomes da proteína do leite nos rótulos
- Carnes bovinas cozidas geralmente são toleradas — não é necessário excluir, a menos que haja reação específica
Termos que indicam proteína do leite nos rótulos
- Leite
- Leite em pó
- Soro de leite (whey)
- Sólidos de leite
- Caseína / caseinato
- Lactoalbumina
- Lactoglobulina
- Proteína láctea
- Manteiga
- Creme de leite
- Leite condensado
- Lactose (atenção: lactose não contém proteína, mas produtos com lactose podem ter traços)
Duração do tratamento
A APLV é, na maioria dos casos, uma condição transitória. O tempo de dieta restritiva deve ser individualizado:
- Crianças com diagnóstico confirmado: manter a exclusão por pelo menos 6 meses após o início do tratamento ou até 9 a 12 meses de idade.
- Casos graves (mediados por IgE): dieta de exclusão por 12 a 18 meses.
- Fórmulas especiais devem ser mantidas, preferencialmente, até os 2 anos de idade (mínimo até 12 meses).
- Reavaliação periódica a cada 6 meses via TPO de tolerância.
- Após 2 anos: se a APLV persistir, pode ser controlada com dieta equilibrada sem proteína do leite, com suplementação de cálcio e vitamina D, sem necessidade de fórmula.
Acompanhamento médico é essencial
Toda criança com APLV deve ser acompanhada por:
- Pediatra e/ou nutricionista com intervalo clínico máximo de 3 meses
- Monitoramento do crescimento e desenvolvimento
- Garantia de ingestão adequada de nutrientes, especialmente cálcio e vitamina D
- Realização de TPO de tolerância a cada 6 meses (ou conforme orientação médica)
O que NÃO fazer no tratamento
- ❌ Não usar leites de outros mamíferos (cabra, ovelha, búfalo) — os proteínas são similares
- ❌ Não usar produtos “sem lactose” — ainda contêm proteínas do leite
- ❌ Não reintroduzir o leite sem TPO supervisionado
- ❌ Não iniciar dieta de exclusão sem confirmação diagnóstica (exceto sob orientação médica)
- ❌ Não usar automedicação
Funciona? A criança cura?
Sim. A APLV tem cura na maioria dos casos. As taxas de aquisição de tolerância são:
| Idade | % de crianças que adquire tolerância |
|---|---|
| 1 ano | ~50% |
| 3 anos | ~75-80% |
| 6 anos | ~90%+ |
Estudos indicam que o uso de fórmulas extensamente hidrolisadas contendo Lactobacillus rhamnosus GG (LGG) pode induzir tolerância mais precocemente — cerca de 78,9% das crianças apresentaram tolerância versus 43,6% sem o probiótico.
⚠️ Aviso de isenção de responsabilidade: As informações apresentadas neste artigo têm caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constituem aconselhamento médico, nutricional ou de saúde. Sempre consulte um pediatra ou nutricionista qualificado para avaliação, diagnóstico e tratamento da APLV. Não faça mudanças na dieta do seu filho sem orientação médica.